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O fiar – pontos, nós, corte

Daniel Albuquerque, João Modé, Madalena Santos Reinbolt, Marina Weffort e Sofia Lotti

Curadoria Cláudio Cretti

Texto de Diego Mauro

O fiar – pontos, nós, corte –, a mão e o tecido entremeados alinhavavam o mundo estranho e por vir: e não é assim que se tecem os dias passados e os dias à frente?

(Itamar Vieira Junior. Salvar o Fogo, 2023, p. 315).

A exposição “O fiar – pontos, nós, corte” reúne trabalhos de cinco artistas que lidam com as artes têxteis. O bordado, o tricô, a costura e a trama são fins mas também veículos para os gestos de cada artista, que oscilam entre o bidimensional e o espacial, a tensão e a fluidez, entre o controle do projeto e graus variados de abertura para as contingências.

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Articulando os trabalhos e o espaço expositivo, estão as peças de João Modé, que tensionam tecidos e fibras, ligando pontos distintos e estabelecendo diálogos entre formas, lugares e indivíduos. Um gesto que atravessa o espaço e costura relações, propondo novas formas de percepção e encontros.

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As figuras da tapeçaria e dos bordados de Madalena Santos Reinbolt tremulam em nossos olhos, de onde pululam humanos e animais que, ao mesmo tempo que se repetem, são únicos. São narrativas nas quais paisagens emergem de um repertório sem estudos prévios, guiadas por memórias dos lugares onde a artista viveu.

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Sofia Lotti também manipula memórias. Ela revisita seus álbuns digitais e reelabora este repertório, valendo-se de céus, copas de árvores, plantas forrageiras como assunto para criar amplos campos de cor. Partindo de um suporte inicialmente plano como a talagarça, Sofia criou um expediente que resulta em topografias de lã a partir de abaulamentos frutos das tensões criadas pelos seus nós, que tencionam e repuxam o suporte, engendrando situações de improviso com os materiais.

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Os tricôs de Daniel Albuquerque, por sua vez, mobilizam um repertório do cuidado, de dobrar como gesto de atenção, afeto, de convívio. O tricô, usualmente associado à flexibilidade e ao aconchego, aqui também se assume elemento escultórico, construindo topologias e geometrias antimonumentais. Suas peças se realizam ao responderem aos pontos de contato com o suporte, demandando das linhas retas uma curvatura em negociação com a gravidade. A recente introdução de quartzos em seus trabalhos traz um quê de cuidado, como um lenço que alguém coloca no bolso esquerdo de uma camisa dobrada.

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Por meio de um profundo domínio do voil, Marina Weffort executa jogos de restrição, retesando o tecido e obtendo da própria trama suas possibilidades: esculpe vazios, cria linhas ortogonais, solta outras partes e assim revela volumetrias sutis que se alteram ante o movimento dos ventos, as mudanças de luz, ou se arrepiam com o ar seco.

 

Seja por meio de gestos de retirada e seleção, como cortar, pinçar e extrair; ou pela soma, acúmulo e entrelaçamento, o ato de bordar se desdobra como um gesto que também é linha do tempo. Cada ponto se anuncia como vestígio, cada nó, um instante de hesitação ou decisão. Há margem de erro, improviso, intenção e acaso. Entre pontos, nós e cortes, inscreve-se um tempo próprio — feito de repetições e variações de materiais muitas vezes domésticos, ordinários, cotidianos.

 

Diego Mauro

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